Atravessar não é destruir

· véu ·

2 de março de 2026

Atravessar não é destruir

Quem rasga véus magoa o que está por baixo. Há uma forma mais antiga, e mais firme, de chegar lá.

Há uma ideia perigosa que corre por aí: que crescer é demolir. Que para te tornares quem és, tens de destruir quem foste. Tens de cortar relações, queimar pontes, abandonar versões inteiras de ti.

Não é assim. Quem cresce assim, cresce magoado.

O que é atravessar

Atravessar um véu é olhar para o que ele estava a esconder, e dizer-lhe: já te vejo. Já não preciso de ti como antes. Obrigada por me teres protegido. Agora podes descansar.

Não é cerimónia. É reconhecimento. O véu não cai porque tu lutas com ele. Cai porque tu já não precisas dele para sobreviver.

A diferença

Vê a diferença entre estas duas frases:

Já não sou aquela mulher.

Aquela mulher fez parte de mim, e eu trago-a comigo com mais ternura do que nunca.

A primeira é rasgar. A segunda é atravessar.

A primeira deixa-te orgulhosa por uns dias e depois deixa-te oca, porque cortaste a tua raiz. A segunda deixa-te inteira. Continuas a crescer, mas em vez de te amputares, integras-te.

A pergunta que importa

Da próxima vez que sentires aquele impulso de cortar. uma relação, um hábito, uma versão de ti. pergunta-te primeiro:

O que é que isto, em mim, está a tentar dizer-me?

A maioria das vezes, é uma parte tua antiga a pedir colo, não eliminação.

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