Há uma ideia perigosa que corre por aí: que crescer é demolir. Que para te tornares quem és, tens de destruir quem foste. Tens de cortar relações, queimar pontes, abandonar versões inteiras de ti.
Não é assim. Quem cresce assim, cresce magoado.
O que é atravessar
Atravessar um véu é olhar para o que ele estava a esconder, e dizer-lhe: já te vejo. Já não preciso de ti como antes. Obrigada por me teres protegido. Agora podes descansar.
Não é cerimónia. É reconhecimento. O véu não cai porque tu lutas com ele. Cai porque tu já não precisas dele para sobreviver.
A diferença
Vê a diferença entre estas duas frases:
Já não sou aquela mulher.
Aquela mulher fez parte de mim, e eu trago-a comigo com mais ternura do que nunca.
A primeira é rasgar. A segunda é atravessar.
A primeira deixa-te orgulhosa por uns dias e depois deixa-te oca, porque cortaste a tua raiz. A segunda deixa-te inteira. Continuas a crescer, mas em vez de te amputares, integras-te.
A pergunta que importa
Da próxima vez que sentires aquele impulso de cortar. uma relação, um hábito, uma versão de ti. pergunta-te primeiro:
O que é que isto, em mim, está a tentar dizer-me?
A maioria das vezes, é uma parte tua antiga a pedir colo, não eliminação.
