Cada véu é uma forma de te protegeres

· véu ·

20 de janeiro de 2026

Cada véu é uma forma de te protegeres

Há partes de ti que não escondes por vergonha. Escondes-as porque um dia foi a única forma de continuar.

Há uma palavra que se usa mal. esconder.

Tu não escondes partes de ti porque tens vergonha. Escondes porque um dia, num lugar onde alguém devia ter-te visto, ninguém viu. Ou pior, viram e usaram contra ti. E a tua psique fez o que faz qualquer coisa viva quando há ameaça: cobriu. Pôs um véu por cima do que era demasiado para mostrar.

E esse véu salvou-te. Não é pequeno detalhe. salvou-te. Conseguiste continuar a existir num sítio em que aquela parte de ti não cabia.

Só que depois cresceste, e o véu ficou.

Não é uma máscara

Uma máscara tu sabes que pões. Sentes a aresta dela na cara. Decides quando vais colocar e quando vais tirar.

Um véu é diferente. Já nem te lembras de o pôr. Já não sabes que está. Olhas para o mundo através dele e juras que aquilo é o mundo a sério.

E é por isso que tantos caminhos que pareciam tão claros começam a doer sem motivo. É o véu. Não te protege do mundo. Protege-te de uma versão de ti que já não precisas de esconder, mas que ainda não te deixaste rever.

O que se faz com um véu

Não se rasga. Quem rasga véus magoa-se, e magoa o que estava por baixo a tentar voltar à luz.

Tira-se devagar. Um canto de cada vez. Em sítios seguros, com testemunhas que sabem o que estão a ver.

Atravessar um véu não é violência. É um regresso.

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