Há uma pergunta que eu faço às vezes, em sessão, e que assusta as pessoas: o que é que tu querias mesmo, se ninguém soubesse?
Não é a versão razoável. É a versão sem censura. Aquilo que tu querias de verdade se a tua mãe não estivesse na cabeça, se o teu marido não fosse acordar, se as outras mulheres com quem cresceste não tivessem opinião.
A maioria das pessoas não consegue responder. Não porque não saiba. Porque não se deixa.
O desejo tem regras estranhas
Tu cresceste num mundo em que querer demais era perigoso. Em que mulheres ambiciosas eram chamadas certas coisas. Em que sentir desejo por algo concreto, em vez do desejo nebuloso socialmente aceite. bem-estar, paz, gratidão. significava ser egoísta, ou ingrata, ou pior.
Então tu domesticaste o teu desejo. Cortaste-o ao tamanho do que era aceitável querer. E começaste a confundir o que tu te deixas querer com o que tu queres.
Não são a mesma coisa.
A primeira pergunta a sério
Tira cinco minutos. Pega num caderno. Escreve isto: se ninguém soubesse, eu queria…
E não pares. Não te edites. Deixa sair o vergonhoso, o ridículo, o demasiado, o que te parece pequeno e o que te parece grande. Tudo.
Não tens de fazer nada com isso. Para já, só tens de saber.
Porque não há liberdade possível enquanto tu não te deixares querer.
