Repara como tu enches o dia.
Música assim que entras no carro. Episódio assim que te sentas. Scroll assim que páras. Não é distração. é fuga organizada. E não foges do tédio. Foges de uma pergunta que sabes que vai aparecer quando o ruído baixar.
A pergunta não tem palavras. Sente-se mais como uma pressão no peito. Uma sensação que pareceria queixa, se a deixasses chegar a queixa. Mas tu não deixas, porque já aprendeste a torná-la em barulho mais palatável: música, vozes, notícias, qualquer coisa.
O silêncio não está vazio
Tu fugiste do silêncio durante anos a achar que ele era um sítio sem nada. Mas o silêncio é só o lugar onde tu te ouves a ti. E há tanto a ouvir.
Há a tua tristeza por coisas que nunca choraste. Há a tua raiva por coisas que nunca soubeste que tinhas direito a sentir. Há, principalmente, a tua saudade. daquela versão tua que tu deixaste para trás algures, porque era inconveniente.
Tudo isso vive no silêncio à tua espera. Pacientemente. Vai estar lá hoje, vai estar lá daqui a vinte anos.
Cinco minutos
Não te peço meditação. Peço-te isto: na próxima vez que entrares no carro, antes de pores a música, fica em silêncio. Cinco minutos.
Deixa vir o que vem. Não respondas a nada. Só ouve.
A pergunta vai começar a ter palavras. Não imediatamente. Mas começa.
